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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Delicatessen

Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé-de-porco". Não entendi. Como? "Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também". Ahn... interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.

Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou?" "A pauladas", respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Conto da Chuva!


Era noite, pessoas caminhavam sem destino em frente ao meu portão, ele, porém, me ouvia enquanto reparava todos os detalhes do meu rosto.
Ficamos ali por horas, dialogando assuntos pendentes, bobagens, coisas relevantes, olhando além e tentando talvez adivinhar o que se passava na cabeça um do outro. Eu sabia que precisava resolver alguma coisa, e sabia q ele esperava justamente por esse determinado assunto. Eu fugia como o diabo da cruz, inventava histórias, contava piadas, falava sobre tudo e todos, menos do que realmente importava naquele momento.
Eu havia pensado, por duas noites pra ser mais exata. Por vezes tentei fugir dos meus próprios pensamentos, não consegui. No fundo eu sabia que já estava na hora de chegar a alguma conclusão. E cheguei!
Não queria aceitar o fato de ter decidido algo que vai além do meu controle, tentei de todas as formas reavaliar a decisão, prós, contras, prós, mesmice. Precisava escolher outra direção.
Foi o que fiz.
Estava ali, parada, de frente pra ele, observando cada gesto, cada olhar, mas sem ouvir uma palavra que saía de sua boca. Naquele momento não queria ouvir absolutamente nada, precisava apenas observar, sentir, tentar descobrir o que me prendia e o que me intimidava. Parecia ser fácil. 

Mas não era! Não é! Nunca foi!
Despedi-me, pedi pra que fosse embora, não queria continuar ali naquele silêncio, esperando tomar coragem e dizer tudo de uma só vez. Ia chover, e não queria que ele pegasse um resfriado.
Entrei em casa com a certeza de que a conversa continuaria.
Mas não continuou.
Meu telefone não tocou e não recebi nenhuma mensagem. Comecei a achar que deveria ter deixado as coisas mais claras, me culpei por algum tempo, tentei achar explicação pelo breve sumiço, mas nada se resolveu. Eu estava preocupada.
Três da madrugada, a campainha toca, a chuva caindo lá fora e eu me perguntava:
-Porque ele voltou? Nessa chuva? Não acredito.
Fui até lá, a chuva estava forte, e ele, parado em frente ao portão, ensopado.
Ao abrir o portão, vejo ele se aproximar, olhar bem pra mim, e ao se aproximar um pouco mais, me beija... Eu correspondo. Naquele momento aquilo me parecia o certo a se fazer, naquele momento eu sentia que nada mais importava, eu estava ali, com a chuva escorrendo pelo meu rosto, recebendo um beijo de alguém que me amava...
Ou parecia me amar.
Entramos em casa, sentamos no sofá e ficamos conversando por mais algumas horas.
E a conclusão?
Nenhuma... Tudo se perdeu no decorrer da conversa e a noite não passou de uma mera tentativa.
Falhou...
Como sempre falha.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Corpo!

Máquina feita de carne viva, sangue quente e energia ás vezes muito quente, outras vezes fria. Massa que me carrega e me desloca para qualquer que seja o lugar, não importa distância, pernas curtas que se alongam conforme a necessidade.
Caixa que emite sons, grita de dor e expele tudo de irrelevante no final do dia. Não armazena coisa ruim, vive do bom e do essencial. Contorce-se quando sente dor, mas segura firme até cessar.
No andar de cima trava lutas diárias entre uma emoção e outra, obrigando o andar de baixo se meter em situações irresponsáveis.
O apego e a curvatura dos braços se aventuram em abraços contidos, disformes. O contato se mistura com a sensação de viver, o suor escorre e mostra que cada parte está no seu lugar, funcionando como deve.
Lábios de cima se mexem na leveza dos sons, a inquietude da língua apara a insensatez das cordas vocais, um misto de firulas que acompanham um simples diálogo.
Esse corpo emana odores, se encarrega de monitorar o que de necessário entra nele. Algumas coisas entram e sai, o que fica já é visto como intruso, o corpo reage. Ele sabe o que está ali só de passagem.
Buracos para sentir cheiro, buraco para sentir prazer, buraco para defecar, buraco pra ouvir e pra lamentar. Nosso corpo é furado e cada furo complementa essa máquina que anda, estraga, cai, chora, machuca, derruba, se enfurece, ri , destrói...
 Lábios sensíveis, que fazem parte da dança do corpo, do contato e afago matinal, da sensibilidade contida em torno de todo o órgão genital. Parceiros do prazer envolvido em apenas uma das partes que gritam.
E se contorcem de prazer!
Tantas vezes se perdem no sentir, uma das válvulas de escape que o corpo possui. Peitos que choram e faz de seu choro alimento, localizados na parte externa dessa máquina que pulsa. Revestido por camadas firmes e aveludadas, composta por pelos que nos protegem e enfatizam nossa natureza.
Meu corpo, nosso corpo, seu corpo.
Uma sinfonia de nervos que se encontram e marcham na aventura de sempre serem vivos e ativos.
Uma máquina singular que não tem hora certa pra parar de funcionar, mas que faz o possível pra sustentar toda essa nossa inquietude de ser e se encontrar dentro de cada um de nós.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Era uma vez...

Era uma vez uma menina tímida e totalmente imersa nos próprios sentimentos e confusões.
Era uma vez uma moça extrovertida e totalmente imersa nos próprios sentimentos e depressões.
Era uma vez uma mulher fechada e totalmente confusa com os próprios sentimentos e limitações.
A cada ano de vida uma coisa nova acontecia, um mundo cheio de coisas e funções se abria e a chamava para participar.
Eram coisas que faziam parte do aprendizado e da evolução dela como pessoa, coisas que após algum tempo não existiriam mais.
Essas coisas não puderam tomar seu lugar na vida dela, pois seu tempo era corriqueiro e curto.
Ela possuía uma casa, família e sonhava com um cachorro.
Grande e peludo.
Queria correr o mundo e senti-lo com as pequenas mãos, correr descalço e usar toda a liberdade que mantinha dentro do peito.
Estava pronta pra ser livre, mas foi cortada antes de tentar.
Mais tarde desenvolveu uma guerra dentro de si, que tentava de toda forma exteriorizar, mas nem sempre isso era bom, nem sempre funcionava.
Toda a liberdade contida se transformou em medo.
Lutava contra tudo e todos.
Queria matar, machucar, amar, trair, magoar, aceitar, desculpar.
E tudo ao mesmo tempo.
Queria ganhar e perder.
Queria.
Hoje ela ainda luta, imersa em todos os sentimentos mal resolvidos e a vontade louca de ser.
Talvez.
Uma pessoa livre.
Completamente.
Livre.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Clarissa.


-Do que você tem medo Clarissa?
-Do medo!
-O medo de ter medo?
-Não, o medo que o medo faz a gente sentir...
-Não entendo.
-Não precisa entender, você deve ter os seus.
-Não possuo tantos medos, apenas coisas comuns, como a morte de um ente querido ou não conseguir dar uma educação boa para meus futuros filhos.
-Banal.
-Pra você, creio!
-Sim , pra mim. A conversa está direcionada em um único ponto.
-Como assim?
-Deixa pra lá.
-Bom...
-Seus medos não me colocam medo.
-E era pra ser o contrário?
-Não.
-Você me confunde.
-A confusão é o princípio do medo.
-Em partes...
-Num todo.
-Você é estranha.
-É o medo.
-Você precisa desse medo?
-Não, mas não consigo viver sem ele. É como se fosse uma história de amor ao contrário, no começo você ama e quer por perto, mas com o tempo o amor vai se transformando em apenas convivência e rotina.
-História de amor ao contrário?
-Sim, amor não deve virar rotina.
-Acho que entendi.
-Tanto faz!
-Até que ponto você consegue controlar seu medo?
-Quem disse que consigo controlar? Como disse, eu preciso dele, não o quero, mas preciso. É uma ligação, um sofrer por antecipação... Imagine que você esteja perdida em uma floresta escura e fechada, ouvindo barulhos e vendo vultos por toda parte. Você sabe que existe algo ali que você vai precisar conviver por algum tempo, ou até o seu socorro chegar. O medo é essa floresta e tudo o que nela habita. Você pode escolher entre correr e gritar ou apenas ficar parada! Nos dois casos o fim será o mesmo.
-Interessante!
-Não é pra ser interessante!
-Que seja! Achar ou não interessante é um direito meu.
-Claro, assim como discordar de você também é um direito.
-Estamos saindo do foco, Clarissa!
-Eu nunca tenho foco.
-Esse medo te atrapalha muito.
-Viver já é um medo! Você sabia que, para os orientais, o lobo é invocado quando se tem interesse em proteger um local ou alguma pessoa? Algumas lendas dizem até que lobos eram a montaria de feiticeiros, ou eles próprios transformados em animais...
-Não, mas o que tem a ver isso tudo com o medo ou com a vida?
-Muita coisa! A vida é o lobo... O lobo tanto amedronta como também fascina, e a vida é exatamente assim...
-Concordo, mas acrescentar ainda mais preocupações e confusões é bobagem.
-Bobagem é achar que acrescento alguma coisa, apenas tenho a coragem de admitir meus medos e conviver com eles. Por acaso você não é uma pessoa confusa?
-Claro que não, sempre tento ordenar meus pensamentos, minha mente atua como uma agenda.
-Claro... Claro...
-Está duvidando?
-É um direito meu, certo?

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Mauro e Fausto.

A história começa onde termina, não existe meio, começo e muito menos fim.
 A história começa assim...

Mauro era um cara boa praça, simpático e agradável.
Fausto possuía todos os dons de cortejos e sabia muito bem como obter a atenção das pessoas.
Ambos possuíam qualidades parecidas, viviam e conviviam bem. Todo dia Mauro fumava um cigarro na companhia de Fausto, apenas um, nunca passava de um cigarro.
Sentavam em frente à televisão e apreciavam aquele cigarro, apreciando cada trago dado e conversando sobre variados temas, inclusive a vida dos outros. 
Fausto gostava de aumentar as coisas, mas não mentia.
Mauro já mentia descaradamente, e Fausto apenas concordava balançando a cabeça.
- Fausto, dona Maria está saindo com quatro caras ao mesmo tempo, será isso modos de uma senhora de idade? Lamentável.
-Pois é Mauro, fiquei sabendo que são seis. Veja só que barbaridade.
E assim a conversa fluía.
Uma vez ou outra convidavam mais pessoas para fumar um cigarro, ver televisão e jogar conversa fora. E assim o ciclo de amizade ia aumentando.
Mauro não gostava de se envolver, não tinha namorada e muito menos pretendia ter.
Fausto já se preocupava bastante com a vida amorosa, e entre um delírio e outro supria suas necessidades inventando histórias vagas para seus amigos.
Uns acreditavam, outros nem tanto!
Dentre as qualidades de Mauro, havia uma um tanto quanto curiosa, ele possuía um incrível bom gosto para as coisas, não podia ver absolutamente nada que queria igual.
- Que mochila legal hein, Fausto? Quanto foi? Onde comprou?
- Bacana né? Comprei-a por R$250,00. Não lembro o nome da Loja.
O preço verdadeiro seria R$50,00.
Nenhuns dos dois tinham controle das situações, eram viciados na mentira, mesmo sabendo que ela possuía perna curta e que, algumas vezes, até se tornava aleijada.
Mas teto de vidro sempre quebra, é só saber usar a pedra certa.
Uma vez foram para uma festa, cansaram da vida em frente à televisão e resolveram se divertir de outra forma.
Chegando lá encontraram alguns amigos e aproveitaram pra colocar a conversa em dia...
-Quanto tempo Ricardo, você sumiu lá de casa, por onde esteve?
- Tive que me mudar Mauro! Alguém da cidade inventou uma fofoca sobre minha mãe e ela já não estava sendo bem vista por aqui.
-Nossa, que barra cara. Mas me conta, como foi isso?
-Alguém disse que ela estava saindo com seis caras ao mesmo tempo. Até hoje não sei como alguém inventaria algo assim.
-...
Num outro canto da festa...
-Fala Patrícia, como vai você? E o Paulinho, tá bem?
-Ai Fausto, não estou muito bem não, Paulinho vai bem.
-O que houve?
- Algum tempo atrás inventaram que eu estava de caso com você, meu marido achou muito ruim e me largou, agora está morando em outra cidade com a atual esposa. Eu sei que você não inventaria nada disso, mesmo não sabendo quem foi... Mas acho que queriam acabar com meu casamento.
-...
Saindo da festa...
-Festa pesada hein Mauro, fiquei sabendo que o Gonçalves traiu a Patrícia e fugiu pra outra cidade com a amante. Veja só que absurdo. Quando ela me disse fiquei perplexo.
-Isso não é nada, Fausto! Ricardo me contou que sua mãe teve que mudar de cidade porque não estava dando conta de administrar todos os homens que ela tinha por aqui. Olha se pode? Ê dona Maria.
Mauro e Fausto são notáveis exemplos de amizade. Assim como a mentira nunca tem fim, essa amizade também não tem. Mauro e Fausto são grandes amigos, porque um completa o outro, um supre o vazio do outro, um ama o outro.

E esse amor? Ah, esse amor também é uma imensa mentira!

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Rouxinol e a Rosa


Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas - exclamou o Estudante - mas estamos no inverno e não há uma única rosa no jardim...
Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...
Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! - disse o Estudante, com os olhos cheios de lágrimas. - Ah! Como a nossa felicidade depende de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.
Eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! - disse o Rouxinol. Tenho cantado o Amor noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.
Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará comigo até a madrugada. Somente se lhe levar uma rosa vermelha... Ah... Como queria tê-la em meus braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... e ficarei só; ela apenas passará por mim... Passará por mim... e meu coração se despedaçará.
Eis um verdadeiro apaixonado... - pensou o Rouxinol. - Do que eu canto, ele sofre. O que é dor para ele é alegria para mim. Grande maravilha, na verdade, é o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.
Os músicos da galeria - prosseguiu o Estudante - tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará. Dançará tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesãos, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... - e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.
Por que está chorando? - perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.
É mesmo! Por que será? - Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.
Por quê? - sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.
Chora por causa de uma rosa vermelha, - informou o Rouxinol.
Por causa de uma rosa vermelha? - exclamaram - Que coisa ridícula! E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade.
Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.
Subitamente, abriu as asas pardas e voou.
Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.
Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou num galho.
Dá-me uma rosa vermelha - pediu - e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!
Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.
Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.
Dá-me uma rosa vermelha - pediu - e eu te cantarei minha canção mais linda.
A roseira sacudiu-se levemente.
Minhas rosas são amarelas como as cabelos dourados das donzelas, ainda mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez ela possa te possa ajudar.
O Rouxinol então, dirigiu o vôo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.
Dá-me uma rosa vermelha - pediu - e eu te cantarei a mais linda de minhas canções.
A roseira sacudiu-se levemente.
Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.
Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, - uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?
Há, respondeu a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.
Dize. Não tenho medo.
Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.
A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha - exclamou o Rouxinol - e a Vida é preciosa... É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola...O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?
Abriu as asas pardas para o vôo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.
O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lágrimas.
Rejubila-te - gritou-lhe o Rouxinol - Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá. Em conseqüência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia; mais poderoso que o poder.. Tem as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em seus braços e seu hálito lembra o incenso.
O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pode entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.
Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.
Canta-me um derradeiro canto - segredou-lhe - sentir-me-ei tão só depois da tua partida.
Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.
Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.
Tem classe, não se pode negar - disse consigo - atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual a maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa e cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!
Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.
Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais foi se enterrando em seu peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...
Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto. Era pálida, a princípio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.
Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. - Mais ainda, Rouxinol, - exigiu a Roseira, - senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.
O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher.
E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.
Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco - pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de rosa.
Mais ainda, Rouxinol, - clamou a Roseira - raiar o dia antes que eu finalize a rosa.
E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou.
Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.
E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.
Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.
Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.
Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu.
A rosa vermelha o ouviu, e trêmula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.
Olha! Olha! Exclamou a Roseira. - A rosa está pronta, agora.
Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou.
Que sorte! - disse - Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.
Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.
Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, - lembrou o Estudante. - Aqui tens a rosa mais linda e vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje à noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá o quanto te amo.
A moça franziu a testa.
Esta rosa não combina com o meu vestido, disse. Ademais, o Capitão da Guarda mandou-me jóias verdadeiras, e jóias, todos sabem, custam muito mais do que flores...
És muito ingrata! - exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa a sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.
Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o Capitão da Guarda... - e a moça levantou-se e entrou em casa.
Que coisa imbecil, o Amor! - Resmungou o estudante, afastando-se. - Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica.
Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Estou grávida!


Estou grávida
Grávida de efeitos colaterais
De prazeres descartáveis
Dores
Desengano
Estou grávida
Grávida de um monstro
Monstro  esse que grita
Chora
Antes mesmo de sair
No fundo já sente
Já se alimenta
Já sabe o que estar por vir
Estou grávida
Grávida de sentimentos
De emoções
Invasões
De experiências que nunca vou parir.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Ilusão - Parte 1


Ilusão!
Parte 1

Veio em minha direção, passos lentos, respiração ofegante. Seria, talvez, alguma projeção criada pela minha mente doentia? Creio que não! De longe dava pra sentir o calor que seu corpo transmitia, seu cheiro emanava pelo ar, alcançando minha respiração e se misturando ao ar que saía pela minha boca. Via-me preso novamente aos meus pensamentos, cercado outra vez por sombras e vozes que não me deixavam em paz.
Talvez essa fosse a hora de correr, se mudar para um lugar onde a presença daquela jovem não me perturbasse tanto. Mas como posso pensar assim? Como posso desejar que isso venha a acontecer? Se a imagem dela está totalmente presa a minha alma...
Não tenho pra onde fugir, nem pra onde esconder, essa é a triste verdade. Poderia eu me entregar a esse desejo que me dilacera? Poderia eu esquecer que existe um alguém que me impede de seguir adiante? Poderia eu deixar de lado todo esse amor que me fulmina por dentro? Poderia...por que não? Mas existe algo de piedade em seus olhos, algo que se desmancharia em lágrimas ao ouvir certas palavras.
Não posso e nem quero magoar um anjo!
Ainda tenho o calor do seu corpo marcado em meu peito, e isso ás vezes me basta. Isso ás vezes me distancia da idéia louca e desvairada de me declarar.
Mal sabe ela que sua existência me inspira a viver, e que o rosto dela é a única imagem que me vem à cabeça a cada amanhecer.
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Ei você!


Ei Você!
Levante sua bandeira para o hedonismo.
Se mostre entre as máscaras do desperdício.
Se jogue nesse mundo capitalista
Veja o quanto vale sua vida. 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Inconstante


— Eu tenho medo de ferir o coração de alguém. 
— Por quê? 
— Porque eu sei como dói.