terça-feira, 26 de agosto de 2014

Clarissa.


-Do que você tem medo Clarissa?
-Do medo!
-O medo de ter medo?
-Não, o medo que o medo faz a gente sentir...
-Não entendo.
-Não precisa entender, você deve ter os seus.
-Não possuo tantos medos, apenas coisas comuns, como a morte de um ente querido ou não conseguir dar uma educação boa para meus futuros filhos.
-Banal.
-Pra você, creio!
-Sim , pra mim. A conversa está direcionada em um único ponto.
-Como assim?
-Deixa pra lá.
-Bom...
-Seus medos não me colocam medo.
-E era pra ser o contrário?
-Não.
-Você me confunde.
-A confusão é o princípio do medo.
-Em partes...
-Num todo.
-Você é estranha.
-É o medo.
-Você precisa desse medo?
-Não, mas não consigo viver sem ele. É como se fosse uma história de amor ao contrário, no começo você ama e quer por perto, mas com o tempo o amor vai se transformando em apenas convivência e rotina.
-História de amor ao contrário?
-Sim, amor não deve virar rotina.
-Acho que entendi.
-Tanto faz!
-Até que ponto você consegue controlar seu medo?
-Quem disse que consigo controlar? Como disse, eu preciso dele, não o quero, mas preciso. É uma ligação, um sofrer por antecipação... Imagine que você esteja perdida em uma floresta escura e fechada, ouvindo barulhos e vendo vultos por toda parte. Você sabe que existe algo ali que você vai precisar conviver por algum tempo, ou até o seu socorro chegar. O medo é essa floresta e tudo o que nela habita. Você pode escolher entre correr e gritar ou apenas ficar parada! Nos dois casos o fim será o mesmo.
-Interessante!
-Não é pra ser interessante!
-Que seja! Achar ou não interessante é um direito meu.
-Claro, assim como discordar de você também é um direito.
-Estamos saindo do foco, Clarissa!
-Eu nunca tenho foco.
-Esse medo te atrapalha muito.
-Viver já é um medo! Você sabia que, para os orientais, o lobo é invocado quando se tem interesse em proteger um local ou alguma pessoa? Algumas lendas dizem até que lobos eram a montaria de feiticeiros, ou eles próprios transformados em animais...
-Não, mas o que tem a ver isso tudo com o medo ou com a vida?
-Muita coisa! A vida é o lobo... O lobo tanto amedronta como também fascina, e a vida é exatamente assim...
-Concordo, mas acrescentar ainda mais preocupações e confusões é bobagem.
-Bobagem é achar que acrescento alguma coisa, apenas tenho a coragem de admitir meus medos e conviver com eles. Por acaso você não é uma pessoa confusa?
-Claro que não, sempre tento ordenar meus pensamentos, minha mente atua como uma agenda.
-Claro... Claro...
-Está duvidando?
-É um direito meu, certo?

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Mauro e Fausto.

A história começa onde termina, não existe meio, começo e muito menos fim.
 A história começa assim...

Mauro era um cara boa praça, simpático e agradável.
Fausto possuía todos os dons de cortejos e sabia muito bem como obter a atenção das pessoas.
Ambos possuíam qualidades parecidas, viviam e conviviam bem. Todo dia Mauro fumava um cigarro na companhia de Fausto, apenas um, nunca passava de um cigarro.
Sentavam em frente à televisão e apreciavam aquele cigarro, apreciando cada trago dado e conversando sobre variados temas, inclusive a vida dos outros. 
Fausto gostava de aumentar as coisas, mas não mentia.
Mauro já mentia descaradamente, e Fausto apenas concordava balançando a cabeça.
- Fausto, dona Maria está saindo com quatro caras ao mesmo tempo, será isso modos de uma senhora de idade? Lamentável.
-Pois é Mauro, fiquei sabendo que são seis. Veja só que barbaridade.
E assim a conversa fluía.
Uma vez ou outra convidavam mais pessoas para fumar um cigarro, ver televisão e jogar conversa fora. E assim o ciclo de amizade ia aumentando.
Mauro não gostava de se envolver, não tinha namorada e muito menos pretendia ter.
Fausto já se preocupava bastante com a vida amorosa, e entre um delírio e outro supria suas necessidades inventando histórias vagas para seus amigos.
Uns acreditavam, outros nem tanto!
Dentre as qualidades de Mauro, havia uma um tanto quanto curiosa, ele possuía um incrível bom gosto para as coisas, não podia ver absolutamente nada que queria igual.
- Que mochila legal hein, Fausto? Quanto foi? Onde comprou?
- Bacana né? Comprei-a por R$250,00. Não lembro o nome da Loja.
O preço verdadeiro seria R$50,00.
Nenhuns dos dois tinham controle das situações, eram viciados na mentira, mesmo sabendo que ela possuía perna curta e que, algumas vezes, até se tornava aleijada.
Mas teto de vidro sempre quebra, é só saber usar a pedra certa.
Uma vez foram para uma festa, cansaram da vida em frente à televisão e resolveram se divertir de outra forma.
Chegando lá encontraram alguns amigos e aproveitaram pra colocar a conversa em dia...
-Quanto tempo Ricardo, você sumiu lá de casa, por onde esteve?
- Tive que me mudar Mauro! Alguém da cidade inventou uma fofoca sobre minha mãe e ela já não estava sendo bem vista por aqui.
-Nossa, que barra cara. Mas me conta, como foi isso?
-Alguém disse que ela estava saindo com seis caras ao mesmo tempo. Até hoje não sei como alguém inventaria algo assim.
-...
Num outro canto da festa...
-Fala Patrícia, como vai você? E o Paulinho, tá bem?
-Ai Fausto, não estou muito bem não, Paulinho vai bem.
-O que houve?
- Algum tempo atrás inventaram que eu estava de caso com você, meu marido achou muito ruim e me largou, agora está morando em outra cidade com a atual esposa. Eu sei que você não inventaria nada disso, mesmo não sabendo quem foi... Mas acho que queriam acabar com meu casamento.
-...
Saindo da festa...
-Festa pesada hein Mauro, fiquei sabendo que o Gonçalves traiu a Patrícia e fugiu pra outra cidade com a amante. Veja só que absurdo. Quando ela me disse fiquei perplexo.
-Isso não é nada, Fausto! Ricardo me contou que sua mãe teve que mudar de cidade porque não estava dando conta de administrar todos os homens que ela tinha por aqui. Olha se pode? Ê dona Maria.
Mauro e Fausto são notáveis exemplos de amizade. Assim como a mentira nunca tem fim, essa amizade também não tem. Mauro e Fausto são grandes amigos, porque um completa o outro, um supre o vazio do outro, um ama o outro.

E esse amor? Ah, esse amor também é uma imensa mentira!

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Respeitar é preservar!

Recentemente vi um vídeo de um cara esmagando um gato com o pé, tendo como motivo pra tal crueldade, uma aposta com os amigos.
É claro que não consegui ver o vídeo todo, mas pelos comentários a cerca dele, pude notar que a película em questão era bastante indigesta. Aliás, não o vi porque quis, ele simplesmente pipocou na minha frente se abrindo automaticamente.
Todos nós sabemos que já tem tempo que a sociedade está cagando para nossa querida natureza, as milhões de indústrias e pessoas comedoras de dinheiro já nos provaram que estão cagando para os animais. Hoje em dia se cortarem uma árvore na rua, praticamente ninguém sentirá falta dela.
O lixo está tomando conta dos rios e os animais entrando em extinção na velocidade da luz. Algumas espécies já sentem o peso da mão destruidora em cima de suas casas.
Nossa sociedade esqueceu que somos semelhantes, não podemos ficar acima de algo tão grandioso como a natureza, não somos mais que qualquer outro ser vivo, devemos viver em harmonia e respeitar cada habitante desse planeta.
Nós precisamos da natureza, ela nos alimenta, sem ela não há vida para nenhuma espécie, por mais avançada e independente que ela seja.
Fala-se muito em proteger o planeta, mas age-se pouco. 
Desde que você receba seu leite pasteurizado e empacotado na sua mesa de café, pouco importa como as vacas estão sendo criadas. 
Desde que você encontre carne fresca e embalada nas prateleiras de supermercado, tanto faz como o gado é morto, e claro, se estão exagerando na matança ou não.
Desde que os ovos fritos com bacon estejam no seu prato, pouco importa como as galinhas estão sendo tratadas.
Vai dizer que não é assim?
Isso sem mencionar os cosméticos, as roupas, os testes feitos em animais e a quantidade de veneno contida nos vegetais.
Não paramos pra pensar que destruindo nosso bem mais precioso, estamos nos destruindo também. Não vivemos sem água, por exemplo, mas isso não é motivo suficiente para cessarem com a poluição e desperdício. Mas em compensação, existem vários motivos para aquela churrascada de domingo ou pra latinha de cerveja jogada na beira da estrada ou pro montante de lixo que insistimos em acumular ou pras milhares de sacolas plásticas que consumimos diariamente e que levam centenas de anos para se degradarem. 
Não esquecendo também dos vários motivos em se fazer uma queimada de papéis no lugar de levar para reciclagem ou do montante de árvores cortadas sem ninguém pra plantar sequer uma no lugar. 
Você pode achar que está acima de tudo e todos com seus diversos aparelhos tecnológicos, indo diariamente na academia ou fazendo aquela caminhada boa de uma hora por dia, mas...
E aquele papel de bala, jogou na lixeira?
E o montante de papel da firma, levou pra reciclagem?
E as árvores ao seu redor, estão sendo cultivadas ou cortadas?
E os animais de rua, já ofereceu uma água ou comida pra eles?
E aquela farra na beirada do rio, o lixo dela foi pra onde?
Se pra você pouco importa o estado do nosso planeta, sinto informar que dependemos dele e não ele depende de nós. Não existe tecnologia no mundo que volte a vida a espécie que entra em extinção, e nós somos uma espécie como tantas outras e corremos o mesmo risco das muitas que deixaram de existir.
A natureza é perfeita, ela nos dá tudo que precisamos, os animais ao contrário de nós humanos, sabem viver e conviver, coisa que nós não praticamos tem muito tempo. 
Um ser humano que movido pelo calor de uma aposta esmaga um gato com os próprios pés é apenas um exemplo do quanto nós não evoluímos ainda, não descobrimos nossa essência e muito menos temos capacidade suficiente para conviver.
Esse rapaz é um exemplo do quanto a nossa sociedade está desenfreada e crítica quando o assunto é violência, estamos em meio monstros de todos os tamanhos e idades. Estamos ficando acostumados com a violência, não desenvolvemos mais empatia por nada, criamos mais e mais seres violentos e incapacitados. 
A natureza sofre!
Os animais sofrem!
Sofrem sem motivo, sofrem apenas para satisfazer os desejos de uma espécie doente e que se acha dominante, e esse sofrimento é dividido em várias partes, cada uma com um sabor diferente.
E você, já provou algum?

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Balança da inércia.



Nossa balança está quebrada, não se iguala mais como antigamente, um lado está doente e confuso, aflito por mudança, mas sem coragem de dar a cara pra bater.
Tudo de importante já se esvaiu no fim das contas, o medo de pular fora desse barco está estampado e tatuado no seu rosto.
De que adianta essa sua inércia? Tantos anos corridos não te fez amadurecer o suficiente? Como pode deixar tudo te abalar e ao mesmo tempo aguentar tanta coisa mesquinha?
Não entendo um pingo de você.
Toda prisão tem uma saída, não pense que no seu caso os problemas são eternos, pois não são. Cada escolha efetuada atinge sua vida no futuro, isso não é óbvio pra você?
Estamos imersas no futuro e se corroendo com o passado, o presente não existe para nós, não usufruímos de nada que ele nos dá, nossa vida é uma ilusão.
Precisamos consertar essa balança logo, colocar todos os pingos nos is, respirar fundo e começar a sentir a vida passando por nós e indo embora sem deixar rastros.
Vamos nos importar com o que está diante de nós, amadurecer e voltar a ser feliz, pensar que nossa trajetória se encontra no presente, esse sim nunca tem fim.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Past.


Quero saber o caminho de volta, enxergar outra vez os sorrisos que outrora me fizeram tão bem, poder falar alto seu nome, sem me preocupar se vou te ver na semana que vem.
Lembro como se fosse ontem, tantos assuntos enrolados em nós dois, brincadeiras e conversas jogadas ao vento, como se por pouco tempo todo o mundo coubesse numa só frase.
Quase sempre um cigarro ocupava a sua boca, estando na maioria das vezes imerso em um fedor persistente de nicotina barata. Lembro até do jeito em que tragava e posicionava o cigarro entre os dedos, jogando sempre as bitucas no chão.
Nosso canto era bagunçado como nossas cabeças, cheios de sonhos e planos que terminavam esquecidos depois da décima taça de vinho.
Não me tornei aquela rebelde ativista colecionadora de gatos como você tanto falava, mas penso que não demora.
Às vezes me pego pensando em no que você se tornou, se alguma hora do seu dia pensa em mim ou nas diversas situações que nos uniam. Na maioria das vezes é doloroso relembrar, deixar tanto sentimento amadurecer assim sem ter alguém para colher é no mínimo angustiante.
Uma vez juramos amor eterno, chegando ao extremo do companheirismo e lealdade, sabíamos bem que não se jura nada, mas mesmo assim o fizemos.
Dois tolos.
Hoje esse juramento perdura por outros caminhos e corações, relutando a cada palavra seguida dele, transformando tantas outras amizades em pseudo eternos elos.
É difícil voltar ao passado e caminhar por esses becos escuros da mente, é complicado te ver, ouvir sua voz, mas não poder ocupar mais o mesmo espaço que o seu.
Sei que tudo isso sempre será passageiro, que uma vez ou outra vamos nos esbarrar por aí, mas tem dia que o desespero nos pega de jeito e definitivamente não tem como fugir.
Tem momentos que gostaria muito que estivesse aqui.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Futuro Anunciado!


Não desanimei, entretanto; o futuro parecia-me subitamente mais difícil do que imaginara, mas era também mais real e mais seguro; ao invés de informes possibilidades, via abrir-se à minha frente um campo claramente definido, com seus problemas, tarefas, materiais, instrumentos e resistências. Não indaguei mais a mim mesma: que fazer? Havia tudo por fazer; tudo que outrora desejara fazer: combater o erro, achar a verdade, dizê-la, esclarecer o mundo, talvez ajudar a mudá-lo. Precisaria de tempo, de esforços para cumprir uma parte que fosse das promessas que me fizera: mas isso não me assustava. Nada estava ganho; tudo permanecia possível.

O Rouxinol e a Rosa


Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas - exclamou o Estudante - mas estamos no inverno e não há uma única rosa no jardim...
Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...
Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! - disse o Estudante, com os olhos cheios de lágrimas. - Ah! Como a nossa felicidade depende de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha é a desgraça da minha vida.
Eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! - disse o Rouxinol. Tenho cantado o Amor noite após noite, sem conhecê-lo no entanto; noite após noite falei dele às estrelas, e agora o vejo... O cabelo é negro como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que deseja; mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim e o sofrimento marcou-lhe a fronte.
Amanhã à noite o Príncipe dá um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada se encontrará entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, dançará comigo até a madrugada. Somente se lhe levar uma rosa vermelha... Ah... Como queria tê-la em meus braços, sentir-lhe a cabeça no meu ombro e a sua mão presa a minha. Não há rosa vermelha em meu jardim... e ficarei só; ela apenas passará por mim... Passará por mim... e meu coração se despedaçará.
Eis um verdadeiro apaixonado... - pensou o Rouxinol. - Do que eu canto, ele sofre. O que é dor para ele é alegria para mim. Grande maravilha, na verdade, é o Amar! Mais precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Pérolas e granada não podem comprá-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores não o vendem, nem o conferem em balanças a peso de ouro.
Os músicos da galeria - prosseguiu o Estudante - tocarão nos seus instrumentos de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada dançará. Dançará tão leve, tão ágil, que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesãos, com suas roupas de cores vivas, reunir-se-ão em torno dela. Mas comigo não bailará, porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... - e atirando-se à relva, ocultou nas mãos o rosto e chorou.
Por que está chorando? - perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele, correndo, de rabinho levantado.
É mesmo! Por que será? - Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.
Por quê? - sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.
Chora por causa de uma rosa vermelha, - informou o Rouxinol.
Por causa de uma rosa vermelha? - exclamaram - Que coisa ridícula! E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade.
Mas o Rouxinol compreendeu a angústia do Estudante e, silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.
Subitamente, abriu as asas pardas e voou.
Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.
Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou num galho.
Dá-me uma rosa vermelha - pediu - e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!
Minhas rosas são brancas; tão brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que a neve das montanhas. Procura minha irmã, a que enlaça o velho relógio-de-sol. Talvez te ceda o que desejas.
Então o Rouxinol voou para a roseira, que enlaçava o velho relógio-de-sol.
Dá-me uma rosa vermelha - pediu - e eu te cantarei minha canção mais linda.
A roseira sacudiu-se levemente.
Minhas rosas são amarelas como as cabelos dourados das donzelas, ainda mais amarelas que o trigo que cobre os campos antes da chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irmã, a que vive sob a janela do Estudante. Talvez ela possa te possa ajudar.
O Rouxinol então, dirigiu o vôo para a roseira que crescia sob a janela do Estudante.
Dá-me uma rosa vermelha - pediu - e eu te cantarei a mais linda de minhas canções.
A roseira sacudiu-se levemente.
Minhas rosas são vermelhas, tão vermelhas quanto os pés das pombas, mais vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do oceano. Contudo, o inverno regelou-me até as veias, a geada queimou-me os botões e a tempestade quebrou-me os galhos. Não darei rosas este ano.
Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, - uma só rosa vermelha. Não haverá meio de obtê-la?
Há, respondeu a Roseira, mas é meio tão terrível que não ouso revelar-te.
Dize. Não tenho medo.
Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hás de fazê-la de música, ao luar, tingi-la com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim com o peito junto a um espinho. Cantarás toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu coração e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.
A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha - exclamou o Rouxinol - e a Vida é preciosa... É tão bom voar, através da mata verde e contemplar o sol em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de pérola...O aroma do espinheiro é suave, e suaves são as campânulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na colina. Mas o Amor é melhor que a Vida. E que vale o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?
Abriu as asas pardas para o vôo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.
O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os lindos olhos inundados de lágrimas.
Rejubila-te - gritou-lhe o Rouxinol - Rejubila-te; terás a tua rosa vermelha. Vou fazê-la de música, ao luar. O sangue de meu coração a tingirá. Em conseqüência só te peço que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor é mais sábio do que a Filosofia; mais poderoso que o poder.. Tem as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. Há doçura de mel em seus braços e seu hálito lembra o incenso.
O Estudante ergueu a cabeça e escutou. Nada pode entender, porém, do que dizia o Rouxinol, pois sabia apenas o que está escrito nos livros.
Mas o Carvalho entendeu e ficou melancólico, porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.
Canta-me um derradeiro canto - segredou-lhe - sentir-me-ei tão só depois da tua partida.
Então o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.
Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.
Tem classe, não se pode negar - disse consigo - atravessando a alameda. Mas terá sentimento? Não creio. É igual a maioria dos artistas. Só estilo, sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. Só pensa e cantar e bem sabemos quanto a Arte é egoísta. No entanto, é forçoso confessar, possui maravilhosas notas na voz. Que pena não terem significação alguma, nem realizarem nada realmente bom!
Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.
Quando a lua refulgia no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais foi se enterrando em seu peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...
Primeiro descreveu o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina; e, no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinária, pétala por pétala, acompanhando um canto e outro canto. Era pálida, a princípio, qual a névoa que esconde o rio, pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada. Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.
Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. - Mais ainda, Rouxinol, - exigiu a Roseira, - senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.
O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho junto ao peito, e cada vez mais profundo lhe saía o canto porque ele cantava o nascer da paixão na alma do homem e da mulher.
E tênue nuance rosa nacarou as pétalas, igual ao rubor que invade a face do noivo quando beija a noiva nos lábios.
Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração e o coração da flor continuava branco - pois somente o coração de um Rouxinol pode avermelhar o coração de rosa.
Mais ainda, Rouxinol, - clamou a Roseira - raiar o dia antes que eu finalize a rosa.
E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe feriu o coração, e uma punhalada de dor o traspassou.
Amarga, amarga lhe foi a angústia e cada vez mais fremente foi o canto, porque ele cantava o amor que a morte aperfeiçoa, o amor que não morre nem no túmulo.
E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do céu oriental. Suas pétalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu coração.
Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas começaram a estremecer e uma névoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se débil e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.
Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.
Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no céu.
A rosa vermelha o ouviu, e trêmula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã. Transportou-o o Eco, à sua caverna purpurina, nos montes, despertando os pastores de seus sonhos. E ele levou-os através dos caniços dos rios e eles transmitiram sua mensagem ao mar.
Olha! Olha! Exclamou a Roseira. - A rosa está pronta, agora.
Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou.
Que sorte! - disse - Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha vida. É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se para colhê-la.
Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.
Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, - lembrou o Estudante. - Aqui tens a rosa mais linda e vermelha de todo o mundo. Hás de usá-la, hoje à noite, sobre ao coração, e quando dançarmos juntos ela te dirá o quanto te amo.
A moça franziu a testa.
Esta rosa não combina com o meu vestido, disse. Ademais, o Capitão da Guarda mandou-me jóias verdadeiras, e jóias, todos sabem, custam muito mais do que flores...
És muito ingrata! - exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa a sarjeta, onde a roda de um carro a esmagou.
Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão. E, afinal de contas, quem és? Um simples estudante... não acredito que tenhas fivelas de prata, nos sapatos, como as tem o Capitão da Guarda... - e a moça levantou-se e entrou em casa.
Que coisa imbecil, o Amor! - Resmungou o estudante, afastando-se. - Nem vale a utilidade da Lógica, porque não prova nada, está sempre prometendo o que não cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prático e como neste século o que vale é a prática, volto à Filosofia e vou estudar metafísica.
Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler...